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O caldeirão étnico do Suriname e o ataque a brasileiros
No final do ano passado, o Suriname, um país pouco conhecido da América do Sul, ganhou as manchetes dos jornais após ser palco de intensa violência. Em 24 de dezembro, na cidade de Albina, a 150 quilômetros da capital Paramaribo, cerca de 80 brasileiros foram atacados por mais de 300 surinameses em resposta à morte de um "maroon", como é conhecido um quilombola do país. Os ataques foram seguidos de estupros, saques a lojas de comerciantes chineses de depredação. Os brasileiros eram garimpeiros que trabalham em busca de ouro, muitos deles em situação ilegal e trabalhando em péssimas condições em mata fechada. O governo local confirmou apenas uma morte em Albina, mas relatos informais e testemunhos enviados aos jornais brasileiros indicam que o número de mortos e feridos é muito superior ao divulgado oficialmente. Conflitos em zonas de garimpo são relativamente comuns, uma vez que sempre estão envolvidos trabalho em condições precárias, imigrantes, busca incessante por ouro e dinheiro e violência. Entretanto, os ataques surpreenderam os moradores da área e os governos dos dois países porque não havia registro de incidentes com brasileiros, apesar das autoridades reconhecerem a dificuldade de controlar o local. O Suriname divide fronteiras com a Guiana francesa (Leste), Guiana (Oeste), Brasil (ao Sul) e ao Norte está o Oceano Atlântico. É a menor e menos populosa nação soberana na América do Sul. A análise demográfica do país pode ajudar a explicar os conflitos de dezembro, uma vez que o país é um verdadeiro caldeirão étnico e religioso. A população de cerca de 500 mil pessoas tem 37% de hindustânis (cujos ancestrais migraram do norte da Índia no século XIX), 31% de crioulos (miscigenação de brancos e negros), 15% de javaneses, 10% "Maroons" (descendentes de escravos que chegaram nos séculos XVII e XVIII), 2% de chineses, 2% de ameríndios e 1% de brancos. Os antepassados dos maroons são escravos que fugiram de fazendas no litoral em direção às florestas do interior, onde começaram a viver como na África, em tribos e como seminômades. A ausência do poder público no interior os tornou os “donos” das terras que ocupam (hoje correspondendo a quase 80% do país), muitas vezes sem respeitar leis, por isso há tantos episódios de violência os envolvendo. Esta mistura também está presente das diversas religiões, por isso não há uma predominante no país. O hinduísmo tem 27,4% de seguidores frente a 25% de Protestantes, 22% de Católicos e 19,6% de muçulmanos. 5% da população segue crenças indígenas. A alta participação de muçulmanos é explicada pela grande massa de imigrantes da Ilha de Java, na Indonésia, país com a maior concentração de seguidores do Islã no mundo. A diversidade linguística é igualmente acentuada: o holandês é a língua oficial (60% da população) e a utilizada na educação e mídia, o inglês também é bastante falado, e existem ainda o Sranan Tongo (língua nativa dos crioulos), o dialeto Hindustâni e o Javanês. O país tornou-se independente da Holanda há apenas 34 anos, e uma das exigências no acordo previa acesso livre e irrestrito ao porto de Roterdã, o maior da Europa. Todos os contêineres que chegam lá ou saem em direção ao Suriname não podem ser vistoriados pelos holandeses, o que transformou a rota em uma lucrativa ponte para entrada de drogas e armamentos.
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