ENFRENTANDO A DROGA DENTRO DE CASA
Se perguntarem à psiquiatra Analice Gigliotti, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD), como ajudar a um dependente químico (álcool, remédios para emagrecer, cocaína, etc...), ela terá muito a dizer e a orientar, como o faz no livro “Drogas.sem”, do qual é co-autora, com as psicólogas e parceiras Elizabeth Carneiro e Gisele Aleluia. Especialista em dependência química, a psiquiatra conhece a enorme angústia e sensação de impotência dos familiares diante das alterações de comportamento e das mudanças físicas do filho(a), marido, esposa, pai ou mãe usuários de droga. A médica explica que com frequência, os familiares demoram a perceber a gravidade da situação. Com o tempo, ficam preocupados em esconder o problema e ocupadas em cobrir as tarefas e compromissos que o dependente de álcool ou de drogas deixa de dar conta. Assim, acabam se sobrecarregando e agravando o quadro, já que impedem que o dependente se veja como alguém deficiente e que arque com as conseqüências e perdas de seu comportamento. “No início, apesar dos familiares perceberem a perda de controle pelo uso de álcool e drogas, eles tendem a silenciar e até minimizar os problemas que ocorrem. Com o agravamento da situação, a família passa a se isolar e a viver em torno das necessidades do abusador, para protegê-lo da exposição social, tentando desesperadamente manter o equilíbrio familiar. Diante do fracasso em controlar o processo de dependência, as pessoas vão se descontrolando e, então, demonstram raiva e até repulsa ao usuário. Na verdade, elas se sentem culpadas por não terem conseguido impedir o agravamento da situação”, diz Analice. A médica lembra que quanto mais o familiar tem atitudes facilitadoras, com o intuito de cobrir a irresponsabilidade e a falta de compromisso do usuário, mais vai se sentindo cansado e usado. “Trata-se do efeito rebote da total ausência de limites”. Diferença entre o que é normal e o que é patológico Vivemos numa sociedade que bebe, por isso é tão difícil perceber quando alguém está abusando do álcool. “Chegamos a um ponto tão escandaloso de naturalização do alto consumo de álcool que existem mães de adolescentes que junto com o bufê de festas contratam o serviço de ambulância”, comenta. Assim, o conceito de abuso se amplia cada vez mais, ficando complicado discernir o limite entre o normal e o patológico. “O processo de alcoolismo é insidioso, vem aos poucos. Normalmente o descontrole começa de forma esporádica, o que não deixa ninguém à vontade para assumir atitudes de questionamento ou de busca de auxílio”. As gradações de dependências de álcool e drogas podem ser leves, moderadas e graves, no entanto, o uso contínuo, produz em muitos casos alterações no cérebro, permitindo o desenvolvimento de uma doença, afirma a médica. Começando a ajudar Felizmente, a maioria dos jovens que passa pelo momento de experimentação de álcool e drogas tende a vivenciá-lo de forma finita, mas como saber quais dentre eles terão problemas de dependência química? Portanto, o monitoramento dos pais é fundamental: levar e buscar os filhos nos eventos, saber aonde e com quem eles vão, ter regras claras sobre o uso de drogas e de quais serão as conseqüências, no caso de tornar a encontrar o filho fazendo uso da substância. Assim os pais podem tentar impedir que a fase de transição se transforme em algo duradouro. Mas, se o envolvimento com álcool e drogas já se tornou um fato, a família vai precisar de muito mais. Observe algumas dicas extraídas do livro “Drogas.sem”: - Ter alguém na família envolvido com álcool e drogas, pode ser motivo de vergonha, contudo, ninguém deveria se envergonhar de ter um familiar doente. Esta talvez seja uma boa hora para refletir sobre os preconceitos que podem estar aprisionando e sufocando você e permitindo que a doença se agrave; - Um dos grandes mitos que cercam a dependência diz que o tratamento só começa quando o dependente quer ajuda. Não é bem assim. O tratamento começa quando alguém (um familiar, por exemplo) quer ajuda, isso significa que o tratamento pode começar por você. Portanto, não perca tempo sofrendo. Procure ajude. Mudanças no seu comportamento vão influenciar o comportamento do dependente; -O fato de que não podemos mudar o outro não significa que não possamos fazer nada com relação ao problema. A questão é aprender a discernir o que podemos e o que não podemos mudar e qual a amplitude de nossa influência no outro; - Quando uma família já tem a dependência química instalada, os limites dos papéis ficam difusos e as pessoas perdem a noção de suas responsabilidades. Enquanto uns se sobrecarregam, outros se omitem. A conseqüência são pessoas exauridas de um lado (superfuncionando) e outras desconectadas do outro (subfuncionando). Não há outra forma de aprender lições se não assumindo as conseqüências. Não se deve tomar para si responsabilidades e funções que um filho, marido, mãe, irmão, colega de trabalho, etc deveriam estar assumindo, mesmo que isto doa. Quanto mais você fizer por eles, menos oportunidades de crescer eles terão; Quando a situação foge ao controle Em muitos casos, as famílias tornam-se reféns do membro dependente químico, não apenas quanto à submissão psíquica, mas também em relação à violência física que pode causar ferimentos e mortes. A droga escraviza o dependente e este, por sua vez, escraviza a família. É preciso lembrar que no estágio de dependência severa, a única meta é obter recursos para financiar a droga. As ameaças podem vir de todos os lados: de dentro de casa (do próprio dependente) e dos traficantes. O que fazer? Enfrentar ou render-se, expondo-se e expondo o dependente à morte? “Seja qual for o caminho escolhido pela família, o importante é que resulte em consequências. Se a família optar por saldar as dívidas com os bandidos, deve oferecer uma conseqüência à altura, algo que doa ou que faça falta ao dependente, pois sem conseqüências os seres humanos não veem sentido em fazer mudanças”, explica Analice. Mas a médica também adverte que ser severo demais pode ser tão danoso quanto ser permissivo demais. “O rigor excessivo pode ser interpretado como desamor e a permissividade sentida como falta de comedimento, fragilidade e insegurança por parte da família. Pessoas em desenvolvimento precisam de alguém firme a seu lado, que mostre saber o que é bom e o que é ruim”. Com freqüência, a família e/ou o usuário experimentam grande sofrimento antes de perceber a necessidade de ajuda. “Como a motivação para a ajuda é muito flutuante, o melhor é procurar clínicas especializadas que possam atender a qualquer momento, com profissionais ativos e disponíveis, que trabalhem em equipe”. O tratamento é muito mais do que uma mera desintoxicação. “É preciso haver a mudança necessária no estilo de vida e na forma de encarar o mundo. Um tratamento eficiente tem foco no uso de drogas, mas também não perde de vista as outras dificuldades e particularidades do sistema familiar”. O tratamento não tem que ser voluntário para se mostrar efetivo. “Há casos em que o dependente, apesar de não querer, é obrigado pela família ou pela justiça a fazer parte de algum processo terapêutico. Essa pode ser a chance para ele enxergar a possibilidade de ter uma vida diferente. A motivação passa a existir com o tratamento, desde que este seja feito por uma equipe hábil em reverter processos motivacionais. Caso contrário, o tratamento forçado pode gerar mais raiva e resistência”. OBS: Analice Gigliotti é médica, pós-graduada em Psiquiatria, especializada em dependência química. É presidente da ABEAD - http://www.abead.com.br/# e membro do comitê global da Society for Research on Nicotine and Tabacco. Co-autora de “Drogas.sem” (Ed. Best-Seller).
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