SISTEMA DE CASTAS O difícil rompimento de preconceitos
A discriminação por castas é proibida na Índia desde 1955, mas, na prática, o preconceito que alimenta a discriminação continua. Apesar das leis já terem mudado, a mentalidade de grande parte dos indianos ainda não. Afinal, são cerca de três mil anos de uma cultura que se baseia na idéia de que a ocupação das pessoas tem ligação com a pureza de seu sangue.
Com base nessa crença, aqueles que lidam, tradicionalmente, com carcaça de animais, lixo, limpeza de sanitários e tudo mais que a sociedade indiana considera nojento e desagradável são tratados como “impuros”. É como se a impureza do trabalho contaminasse o próprio indivíduo, sua família e seus descendentes.
Antigamente, essas pessoas eram chamadas de “intocáveis” e estavam fora do sistema de castas da cultura hinduísta a qual pertencem mais de 80% dos indianos. Hoje são conhecidas como dalits (párias, oprimidos), expressão que desde algum tempo se estende também aos indianos de castas baixas que tradicionalmente fazem trabalhos braçais.
Essa população que chega a 300 milhões de indianos - quase o dobro da população brasileira que é estimada em cerca de 190 milhões - sempre foi maltratada, humilhada e desassistida pelos órgãos públicos - o que reflete o preconceito e, ao mesmo tempo, referenda à discriminação.
Hoje, mais de 50 anos depois que a lei entrou em vigor, os dalits começam a ganhar voz. O boom econômico criou muitas oportunidades de trabalho nas cidades, trazendo dalits do campo para os centros que oferecem uma gama variada de profissões como caminhoneiros, operários de fábrica ou de construção, eletricistas, mecânicos, etc Das cidades, eles mandam dinheiro para suas famílias, que também começam a se libertar da escravidão dos senhores de terras e de suas relações feudais.
Interesse econômico por trás do preconceito
A “alforria” dos dalits contraria os interesses das castas altas. A mudança da subserviência para a autonomia e a conquista de um novo estilo de vida têm gerado reações violentas. O dalit, Chandra Bhan Prasad, autor do livro “Dalit Phobia: why do they hate us?” (“Dalitfobia, por que eles nos odeiam?”), ativista que nasceu em uma comunidade de artesãos em artigos de couro de animais, conta que pela primeira vez os dalits estão se transformando em consumidores.
O boom da economia indiana, que cresce a taxas anuais de 7 a 9% há anos seguidos, tem permitido que eles comprem desde xampus e pastas de dente a roupas feitas e comidas processadas. Mas, quando jovens dalits voltam com dinheiro, vestidos com roupas novas, jeans, relógios de pulso e óculos escuros aos vilarejos de origem, no interior do país, são atacados violentamente pelos indianos das castas mais altas, inconformados com a perda da mão de obra explorada e com a mudança de valores.
Para romper com o passado opressor, muitos dalits convertem-se ao Budismo (mais liberal e igualitário), ao Islamismo ou ao Cristianismo. Com uma nova religião, conseguem cursar universidades apesar da descriminação que sofrem de colegas e professores. Essa estratégia tem contribuído para a formação de grandes líderes dalits, como o caso da ministra-chefe do Estado de Uttar Pradesh, com 150 milhões de habitantes e considerado o mais importante da Índia.
A História nos ensina que muitas décadas são necessárias para superar uma opressão enraizada até porque existem interesses contrariados por trás do preconceito e da rejeição. Assim foi nos Estados Unidos, onde os negros já estão presentes em todas os níveis sociais. Também, o mundo ocidental assiste à crescente presença das mulheres em nichos do mercado de trabalho que antes eram só ocupados por homens.
Se por um lado muitas gerações deixaram de desfrutar dessas conquistas, por outro sabemos que o preconceito não é eterno. Portanto, vale a pena ser combatido.