EDUCAÇÃO INCLUSIVA: A TEORIA E UMA PRÁTICA
Com seus pressupostos criados desde a década de 70, nos EUA, a educação inclusiva, nos dias de hoje, ainda é um dos maiores desafios do sistema educacional. O processo de inclusão se refere a um processo educacional que visa estender ao máximo a capacidade da criança portadora de deficiência na escola e na classe regular. Mas a realidade tem mostrado, de um lado, medo e insegurança de alguns pais, que preferem matricular seus filhos em escolas especiais, temendo discriminação de seus filhos, em instituições de ensino regular e, por outro lado, instituições com educadores mal preparados para lidar com esse tipo de questão. M. O., advogada que preferiu manter o anonimato, relata sua experiência com o filho, de sete anos, e com um atraso global de desenvolvimento, cuja característica mais importante é a ausência da fala, o que o leva a comunicar-se por sinais – antes, os que ele mesmo inventava, mas mais recentemente, os da LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), que é a língua dos surdos. Segundo a advogada, muitas pessoas podem estar passando por situação parecida e a experiência de um, pode ser a luz que faltava para ajudar uma outra família a elucidar seu problema. Joaquim é forte e bastante saudável, mas necessita de atendimento psicoterápico e fonoaudiológico. Atualmente, não há um diagnóstico fechado, apenas sintomas de um quadro sindrômico. “Sua vida escolar começou por volta de um ano e oito meses, em uma escola regular de educação infantil. E foi lá que suas questões começaram a aparecer, pois foi a equipe da escola quem primeiro nos sinalizou seu atraso, especialmente na parte motora. Como seu primeiro ano de vida tinha sido bastante normal, pra nós, pais, essa primeira “chamada” foi uma grande surpresa. Num primeiro momento, fomos bastante resistentes, tentando justificar tudo o que nos era apontado: ele é mais “contemplativo”, é mais lento porque é muito grande, meninos demoram mais a falar, etc, etc. Mas fomos convencidos a investigá-lo e então iniciou-se uma verdadeira “epopéia” por consultórios de especialistas. Ocorre que esta escola, tão importante para nos mostrar os primeiros sinais de suas necessidades, em pouco tempo mostrou-se inábil a lidar com elas. Sempre insistíamos muito pra que a comunicação entre nós e a escola funcionasse (se possível, diária, afinal, tratava-se de uma criança “diferente”), mas isso não acontecia. Até que, ao descobrirmos que quando estava agitado e “atrapalhando” a rotina da turma, ele era retirado da sala “pra dar uma voltinha”, e que isso acontecia com bastante freqüência, ouvimos da professora que “São dezesseis crianças”. Hora de procurarmos outra escola. Fizemos algumas pesquisas e chegamos a uma outra escola, maior, e que possuía uma boa experiência com crianças especiais, mas com um limite de duas por turma. No primeiro ano, como o grupo era pequeno, não foi preciso nenhuma ajuda, mas a partir do segundo ano, com um número maior de alunos, a escola sugeriu o auxílio de uma mediadora. Este assunto, por si só, rende várias e várias linhas... mas, basicamente, seria alguém que o ajudaria a permanecer nas sala e a fazer as atividades, já que seu tempo de concentração não era muito grande. E assim aconteceu por três anos. Educação adequada Joaquim, então, chega ao último ano da educação infantil, e a grande maioria dos amigos já está escrevendo o nome, conhecendo as letras e fazendo operações de matemática. E começam a vir pra casa os deveres de casa. Ficou evidente pra nós que muito pouco daquilo tudo fazia sentido pra ele. Então, um novo período se iniciou. Durante um ano inteiro, discutíamos quase que diariamente sobre a decisão de mantê-lo nesse grupo ou não. Afinal, ele era querido, bem cuidado, todos já conheciam seus sinais e ele tinha feito um vínculo fantástico com seus amigos queridos. Por que, então, mexer no que está tão confortável?? A escola, quando perquirida, dava-nos certeza de que ele não estava tão defasado assim, mas pelo contrário, mostrava-se cada vez mais interessado e com boas perspectivas (o que só tornou a decisão mais difícil!). Mas não ficamos convencidos, e duas questões foram definitivas pra nós: a primeira, foi a aposta de que, olhando pra frente, em um curto prazo, estaríamos às voltas com as mesmas questões. Só estaríamos adiando o que seria inevitável, perdendo um tempo precioso, porque se não sabíamos, ao menos intuíamos que ele não estaria preparado para o que estava por vir, principalmente para a alfabetização (a essa altura, ele ainda estava aprendendo o nome das cores e começando a entender os números...). O segundo ponto surgiu pra nós quando, ao mudar de Fonoaudióloga, começamos a conviver com mais crianças especiais, como as surdas, autistas e outras sem um diagnóstico, assim como ele. Sua identificação com essas crianças foi imediata e emocionante, e percebemos que pela primeira vez em sua vida, ele se sentia “pareado” com os demais, ou que pela primeira vez, ele não tinha ficado pra trás. Ficou claro também que elas precisam de uma educação adequada – o que acaba sendo bastante improvável em uma turma com vinte, vinte e cinco alunos. E os professores precisam ter a técnica, precisam também estudar bastante pra isso. Além do mais, sabemos que com o tempo, Joaquim terá, cada vez mais, consciência de sua diferença e não sabíamos como nós e a escola poderíamos administrar essa situação. Até quando teria uma mediadora? Até quando poderia permanecer na turma dos amigos de sempre? Aceitaria fazer atividades diferentes dos demais? Concluímos, assim, que aquela escola tinha sido seu lugar até aquele momento, que foi importante pra ele conviver com aquelas crianças pra aprender a esperar sua vez, a dividir, ... E que pras outras crianças tinha sido igualmente valioso conviver com ele – e esse é o grande “lance” da inclusão: aprende-se, sim, desde muito cedo, a conviver e a respeitar as diferenças. Mas estava ficando difícil pra ele, muito mais do que pra nós. Era a hora de distinguirmos o que esperamos do nosso filho daquilo que ele realmente precisa. Chegamos, então, a uma terceira escola, que possui uma proposta um pouco diferente: há turmas regulares e turmas especiais, mas todas convivem no recreio, nas excursões. Confesso que à primeira vista, fiquei bastante mexida, tentando adivinhar o que cada criança ali teria. E a escola não era bonita. E eu não conhecia ninguém. E era mais longe. Mas começaram a chegar os deveres de casa e cada vogal que consegue fazer, Joaquim fica radiante e nos mostra com muito orgulho. A equipe da escola entendeu que ele ainda vai precisar de uma mediadora, mas mais pela questão da comunicação, e de uma maneira bem mais discreta, pois quase não há interferência em sua relação com a professora. Sua turma é bem menos numerosa, e, mesmo dentro dessa turma, pequenos grupos são formados, pra que as atividades sejam ainda mais direcionadas. Estamos nos acostumando com a nova rotina, mas a julgar pela alegria com que ele vai pra escola, e pelas muitas estórias que volta pra casa contando, só podemos acreditar que está dando certo".
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